O que fazemos quando fazemos análise?

“O que fazemos quando fazemos análise?” é a pergunta que abre o seminário de Lacan sobre os escritos técnicos de Freud. Não tenho aqui a pretensão de respondê-la; é, na verdade, em função dela que ponho o meu desejo em questão.

Em um primeiro momento, “a cura pela palavra” é um importante ponto no campo do encontro analítico. Os trabalhos de escutar a palavra do outro e o de produzir palavras que possam se transformar em demanda abrem novas possibilidades para a compreensão do sofrimento humano. Quando a palavra se impõe, durante a trajetória de Freud pela descoberta do inconsciente, se fundamenta a importância da palavra advinda de um sujeito acordado que deixa lacunas; e a comunicação que acontece nesse encontro enuncia que a fala é sempre falha, seu funcionamento obedece à lógica inconsciente, das formações dos lapsos e dos sonhos, dos fenômenos desconhecidos que habitam e que escapam a todo sujeito de linguagem. Assim, quando o analisando associa, fala de um outro, um estranho, um desconhecido que se desvela quando a lógica consciente vacila.

Todavia, a psicanálise não é uma cura pela palavra, ou uma simples “busca de sentido”. Ao analista, é preciso se deixar utilizar com prudência, pois é aí, na transferência de saber, que se encontra o motor do caso único, a maneira como cada analisante vai utilizar o seu analista como um objeto, enlace sempre a ser inventado pelo sujeito, no ponto em que Freud deduziu sua prática impossível: do real que é a psicanálise.

Estamos diante de duas balizas, nos diz Soler (2013): “de um lado, orientar o dizer da demanda, fazer escrever seu sentido real que vale para qualquer falante em análise, mas… Por outro lado, não perder a singularidade própria ao saber inconsciente que, para cada um, não é similar a nenhum outro. Sustentar esses dois extremos é o ofício do analista. Pois bem, creio que um analista só pode se sentir inadequado no lugar dessa performance”.

“Coloco vocês a par de que, atualmente, entre os analistas, e dos que pensam – o que já diminui o círculo – não existe talvez um único que tenha, no fundo, a mesma ideia que qualquer outro dos seus contemporâneos ou vizinhos a respeito daquilo que se faz, daquilo a que se visa, daquilo que se obtém, daquilo de que se trata na análise”, Lacan comenta em Os escritos técnicos de Freud, Seminário 1. Sua releitura diz não somente sobre a questão de ser um analista, mas também do problema do ser do analista, ou seja, em que consiste um analista. A questão ecoa e faz-se ouvir em diversos momentos de seu ensino, em que Lacan convocará os analistas a sustentar um desejo em análise absolutamente singular: o desejo de analista, um desejo de ocupar o lugar do objeto causa de desejo de seu analisante para depois cair como resto. Um desejo, portanto, absolutamente necessário para uma prática de análise que tenha como direção conduzir o sujeito a querer saber algo de seu próprio desejo.

Analisar-se é inventar o inconsciente.

O que está posto é que nós, seres falantes, nascemos em uma rede significante, mas esse significante não é todo, então já nascemos sob a marca de uma falta: a falta que faz falar. É esta condição que o analista oferece ao analisante, mas é o analisante que se autoriza nesse percurso. O Um é introduzido como primeiro passo da experiência, pois nós, analistas, somos apenas um entre muitos. O que se apresenta ao analisante é que ele não tem nada a ver com esses outros, e que ele quer estar sozinho com o analista para que dois sejam um, mas se trata de perceber que este dois é o Um que o analisante acredita ser, e que se trata de ele dividir. Se trata de dividir, para que então surja essa verdade de que não se diz, mas de que se sofre.

Nós deitamos no divã para acordar na vida, para lembrar do dizer esquecido que nos habita. Esta é a aposta do analista que, esperando nada, aguarda escutar o que do corpo resta de vivo, o que pulsa, o que deseja; aí está o saber.

Referências:

SOLER, Colette. A oferta, a demanda e… a resposta. Stylus (Rio J.) [online]. 2013, n. 26, p. 15-28.
LACADÉE, Philippe. O que há de único em cada sujeito. Opção Lacaniana. 2007, n. 51.
LACAN, Jacques. Introdução aos comentários sobre os escritos técnicos de Freud. In: Os escritos técnicos de Freud. Zahar: Rio de Janeiro, 1953-54.

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