O que é a ansiedade para a psicanálise?

Podemos dizer que a ansiedade é o diagnóstico mais recorrente da atualidade, sendo diagnosticado com frequência pelas comunidades médicas e científicas relacionadas a saúde mental. Mas e para a psicanálise, o que é ansiedade?

Precisamos antes de mais nada fazer uma distinção entre ansiedade, medo e angústia. Para construir essas ideias, tentarei retratar alguns estudos de Freud e Lacan, para elucidarmos os possíveis caminhos que podem resultar nesse diagnóstico de “ansiedade”.

Medo e Fobias.

Podemos associar o medo às fobias, como um componente que sempre traz algo do real, e que ao mesmo tempo diz de um objeto nomeável, como medo de cavalos, medo de escuro, medo de altura, ou seja, no medo existe um objeto. O cavalo pode morder, o escuro pode ser fatal, de uma determinada altura posso cair e assim por diante. Nesse ponto pode-se dizer que o medo se diferencia da angústia.  

Angústia

“A angústia tem inegável relação com a expectativa: é angústia por algo. Tem uma qualidade de indefinição e falta de objeto”

(Freud, S. 1926/1996a, p. 189, grifo do autor).

Para pensarmos a angústia em Freud, precisaremos recorrer as noções de prazer e desprazer, publicadas em seu trabalho:” Além do princípio de prazer (1920) – Beyond the Pleasure Principle: And Other Writings”. Freud chamou de momento traumático a instalação do caos no aparelho psíquico, guiados por puro desprazer, uma situação “traumática” do qual o sujeito não está preparado para recebe-la. Com isso, ocorre o rompimento do “escudo protetor” (Freud, 1920) promovendo o desequilíbrio das pulsões. Em decorrência do trauma, o aparelho psíquico desenvolve uma espécie de sensor de perigo, como tentativa de se preparar para possíveis repetições deste mesmo evento dito traumático. Podemos inclusive pensar o ato do nascimento como traumático para o sujeito, porém tratasse de algo que nunca irá se repetir novamente.

No trauma, há o máximo de desprazer, não havendo assim ligação da energia, que invade o aparelho psíquico. Se aí não há controle, só depois é que o princípio do prazer poderá entrar em ação, procurando, por uma diminuta repetição do evento traumático, promover algum domínio sobre isso. Então, podemos pensar que a situação de perigo _ o que se teme _ é que o trauma volte a ocorrer, e que não se esteja preparado para lhe fazer frente. (Pisetta et all, 2008)

Sendo assim pode-se definir o trauma como uma situação psíquica em que a quantidade de excitação _ tanto “de dentro” quanto “de fora” _ não pode ser “contida” ou “diminuída” pelos esforços do psiquismo, promovendo assim o rompimento do escudo protetor e dando lugar a angústia.

Uma segunda origem da angústia (ou modo teórico de apreciá-la) seria aquela em que o eu produz ou reproduz a angústia, baseado nesta primeira situação de desprazer absoluto. Esta angústia é sinal de uma possibilidade de repetição de um tal evento, sendo, desta forma, uma apropriação pelo psiquismo deste primeiro momento. Vemos que este sinal de angústia é “manobra” do eu, se constituindo como uma ferramenta de proteção do eu às pulsões desagradáveis a ele. O sinal de angústia é, desta forma, uma estratégia do eu, uma defesa. Lacan aqui interpõe sua leitura da angústia ligada ao real para destacar que, se há defesa, não é defesa da angústia, mas de algo a que sua aparição aponta

(Lacan, 2005, p. 153 apud Pisetta et all, 2008).

Dessa forma, podemos pensar a angústia como um mecanismo de defesa do aparelho psíquico contra pulsões desagradáveis vivenciadas anteriormente. Supondo a existência de um primeiro evento traumático, o aparelho buscará uma forma de evitar que esse mesmo evento se repita, ou seja, uma tentativa de evitar o trauma já vivenciado, recalcando o primeiro evento e através da angústia “evitando” a repetição deste mesmo evento.

Em relação à situação traumática, na qual o paciente está desamparado, convergem perigos internos e externos, perigos reais e exigências pulsionais .

(Freud, S. 1926/1996a, p. 193)

Ansiedade

Já com algum entendimento do que é medo e angústia para a psicanálise, podemos pensar nos possíveis caminhos do desejo que podem levar aos ditos sintomas de ansiedade. Vimos anteriormente que no medo existe a predominância de um objeto, na angústia o objeto é recalcado como forma de preservação do aparelho psíquico, mas e na ansiedade?

Existem diversas formas de pensar a ansiedade, as mais recorrentes tem sido as classificações no CID e no DMS, como Transtorno de pânico (ansiedade paroxística episódica), Ansiedade generalizada, Transtorno misto ansioso e depressivo dentre outros. Porém é importante dizer que a psicanálise faz uma certa oposição a esse modelo classificatório do sujeito, uma vez que para a psicanálise existe a consideração da subjetividade. Dessa forma a ansiedade será tratada na clínica como qualquer outro significante levado pelo paciente e que terá um sentido e significado singular para cada um.

A ansiedade para a psicanálise

Na ansiedade o objeto começa a se tornar indefinido, ou seja, não se sabe ao certo de que medo estamos falando, mas sabemos que há algo ali, que está por vir, e essa ânsia tem uma profunda relação com as questões do desejo, uma espécie de crise do desejo, onde o sujeito pode vir a desejar muito algo mas sem saber se aquilo irá se concretizar.

Nesse sentido, é possível pensar que a ansiedade está ligada à uma forte necessidade de controle, das possibilidades, da realidade, das fantasias e etc. Já a angústia é esse lugar em que o desejo aparece ao sujeito como extraído, reduzido a uma certeza, indexado a uma garantia de que somos apenas um corpo (Dunker, 2016).

Como tratar a ansiedade?

Quanto ao tratamento da ansiedade, em psicanálise é possível oferecer um redimensionamento do sujeito com o seu desejo, na tentativa de reduzir a captura desse desejo pelo ego, ou seja, pelas imagens narcísicas, reduzir a necessidade do sujeito em atender as demandas da cultura, reduzir a captação desse desejo em formas de gozo, por fim, o tratamento da angústia e da ansiedade passa pela subjetivação do desejo.

Fontes:

@chrisdunker | Falando nIsso 27 – Youtube

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Pisetta, Maria Angélica Augusto de Mello. (2008). Angústia e subjetividade. Revista Mal Estar e Subjetividade8(1), 73-88. Recuperado em 23 de junho de 2021, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482008000100004&lng=pt&tlng=pt.

Arte construída com base na referência: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/07/17/ansiedade-o-que-e-quais-os-tipos-os-sintomas-e-tratamentos-mais-eficazes.htm

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