O que é o divã? Qual a sua função na psicanálise?

Divã Freud psicanálise o que é
Moraes, B. O que é o divã? Qual a sua função na psicanálise?. Espaço Penseé . (2020)

O que é o divã?

Para que haja analise é preciso ir para o divã? Sem dúvidas muito da imagem que a psicanalise transmite, desde seu surgimento, a associa diretamente ao divã. Antes mesmo da descoberta da psicanálise, Freud já se utilizava do divã na aplicação da hipnose. Nesse sentido, é possível pensar o divã, incialmente, como um objeto simbólico que foi preservado nos métodos aplicados pela psicanálise posteriormente.

Outro elemento de grande importância, é que inegavelmente no divã, deitado, sem ter o “outro” ao alcance, é possível se relacionar melhor com as palavras, através da suspensão da pulsão escópica. O olhar muitas vezes, emerge como barreira para o tratamento, justamente por ser difícil encarar o outro, quando certos conteúdos estão sendo levantados em análise.

Lacan dividiu o tratamento em duas etapas, ou seja, as entrevistas preliminares que ocorrem frente a frente, e a entrada em análise, que marca a inicialização da utilização do divã, o que geralmente ocorre, naquele momento em que o vínculo já está formado, e a necessidade do contato visual já se tornou obsoleta.

De caso a caso, cada sujeito demanda, ou não, do divã, a depender dos fatores que emergem no processo analítico de cada um.

Divã utilizado por Sigmund Freud, pai da psicanálise
Divã utilizado por Sigmund Freud, pai da psicanálise.

Pulsão escópica.

Não tratarei aqui do tema pulsão, uma vez que já abordei tal assunto anteriormente no texto: PULSÕES – De Freud a Lacan, disponível abaixo.

PULSÕES - De Freud a Lacan
PULSÕES – De Freud a Lacan

Ao lado da pulsão invocante, a pulsão escópica atua como agente organizador do regime psíquico através da inclusão de estruturas de linguagem adquiridas no contato com o outro que o cerca, ressaltando, como bem aponta Miller (2005), a importância do imaginário no que diz respeito ao gozo. É nesse sentido que Lacan diz que “no nível escópico, não estamos mais no nível do pedido, mas do desejo, do desejo do Outro. É o mesmo no nível da pulsão invocadora, que é a mais próxima da experiência do inconsciente” (Lacan, 1964/1998, p. 102).

RAVANELLO, Tiago; DUNKER, Christian Ingo Lenz; BEIVIDAS, Waldir.

A psicanálise é marcada por momentos muito significativos em sua historia, sendo um deles a utilização do divã por Freud como ferramenta analítica. Houveram inúmeros questionamentos a respeito desse ato, que podemos pensar como algo revolucionário e que mudaria muitas coisas para a psicanálise e também para as ciências psíquicas que no geral, associam a figura do divã ao tratamento em saúde mental.

Mas afinal, o que levou Sigmund Freud a retirar a visão da cena em um ambiente onde a fala é privilegiada? É importante pensarmos que o olhar não perdeu seu espaço ali, mas sim, ganhou um novo lugar.

Não ignorando o fato de que a pulsão em si necessita de um apoio somático, é preciso ir além daquilo que os olhos podem ver, aumentando seu próprio alcance e passando a considerá-la enquanto pulsão escópica. Assim, o olhar se desprende do órgão e passa a ser vislumbrado através de uma nova possibilidade: dos olhos do inconsciente.

RAVANELLO, Tiago; DUNKER, Christian Ingo Lenz; BEIVIDAS, Waldir.

Referências

RAVANELLO, Tiago; DUNKER, Christian Ingo Lenz; BEIVIDAS, Waldir. Uma via indireta para a abordagem do afeto: libido, gozo, pulsão escópica. Tempo psicanal.,  Rio de Janeiro ,  v. 49, n. 1, p. 9-36, jun.  2017 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382017000100002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  11  dez.  2020.

Psicólogo Bruno Moraes
Bruno Moraes – Psicólogo

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